.:: Introdução

Quando percebo que é chegada a madrugada, pelo sono sorrateiro amortecendo as minhas pálpebras, e que não há mais risos e pessoas perambulando pelas ruas, nem o tilintar dos copos no balcão, nem mesmo os acordes quase dormentes de um companheiro de solidão, lembro-me de ti e começo a tecer um sonho, recostado num travesseiro duro como o sacrifício da tua ausência…
Meu coração percorre as ruas, anda devagar pela avenida, dobra uma esquina, corre pela rodovia, desce uma serra, faz curvas, sobe ladeiras, transpõe pontes, corre feito um louco e chega quase cansado ao coração de uma cidade. É fria a noite. Ninguém deverá estar nas ruas a esta hora. Já não é mais dia…
Tento em vão adivinhar: Meu Deus, o que estarás fazendo a esta hora?
Certamente dormes.
Meu coração perdeu o sono há tempos e agora se aproxima do teu rosto numa cama qualquer, num quarto qualquer, numa casa qualquer… é sereno e não mostra cansaço. Teu sono solto faz-me aproximar. Debruço-me ao lado da tua cama e meus olhos olham os teus olhos fechados. Minha boca se aproxima da tua e fico à distância de um sussurro. Desesperadamente trêmulo.
Perco os sentidos e já nem sei mais quem sou. Acabei de me desidentificar. Não tem mais sentido ter sentido algum.
Balbucias algumas palavras que o sono te obriga a dizer e entre elas posso discernir perfeitamente uma sílaba do seu nome.
Minhas mãos trêmulas acariciam teu rosto, carregando na alma a dor, o amor e o medo. Ainda escuto meu coração dizer: dorme, meu anjo, dorme!

E mais uma vez me esvazio. Um oco interior me atormenta
“Sinto-me novamente caído e o abismo se alarga”
Cerro a porta e saio. Quase num ímpeto, olho pela janela semiaberta, num último e tentador desejo de contemplar mais uma vez a serenidade do teu sono, vejo, pela última vez, meu coração pulsando forte sobre o teu peito como se quisesse morar ali para sempre…
E mais uma vez me esvazio. Um oco interior me atormenta. Sinto-me novamente caído e o abismo se alarga.
Com o resto das lágrimas que me restam, rendo-me a uma única e sofrida lágrima que desliza teimosamente pelo meu rosto, cálida e profunda, como um pingo de estrelas, espremida nas bordas apertadas do meu coração selvagem de fera e flor…
.:: Revista VISUAL: Conclusão ::.
E mais uma vez me esvazio. Um oco interior me atormenta. Sinto-me novamente caído e o abismo se alarga.
Com o resto das lágrimas que me restam, rendo-me a uma única e sofrida lágrima que desliza teimosamente pelo meu rosto, cálida e profunda, como um pingo de estrelas, espremida nas bordas apertadas do meu coração selvagem de fera e flor…





