Música e cemitérios: musicais nos confortam por sua tradição secular

.:: Música e Cemitérios

Em geral, cemitérios nos afastam, pois a maioria de nossas experiências neles está ligada à perda de entes queridos. Em momentos difíceis como este, a música pode nos confortar, razão da tradição secular dos acompanhamentos musicais em funerais. Há, ainda, composições voltadas especificamente a esse fim, como marchas fúnebres e missas de réquiem. O padre João Mohana, em A Grande Música do Maranhão, nos conta o caso do vianense Basílio Magno Serra, maestro e professor de música atuante no Engenho São Pedro de Alcântara (atual Pindaré-Mirim), falecido em 1925, que teve sua marcha fúnebre “Saudade Eterna” tocada no próprio funeral.

Enquanto alguns optam por marchas fúnebres ou missas de réquiem, associadas ao luto, outros preferem gêneros musicais vívidos como o samba, no intuito de celebrar uma vida bem desfrutada – costume presente em países como Gana e México. Nas tradições afrodescendentes do Maranhão, temos o Tambor das Almas, tocado apenas em velórios.

Dentre as várias interfaces possíveis entre morte e música, irei focar em um dos temas da pesquisa que conduzo desde 2015: músicos maranhenses em cemitérios. Comecei a investigação no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro (RJ), uma das maiores necrópoles da América Latina, onde se encontram inúmeras sepulturas adornadas com obras de arte. Além de nove ex-presidentes da República e centenas de artistas, lá repousam três importantes músicos maranhenses: o violinista Leocádio Rayol, o pianista João Nunes e o compositor Elpídio Pereira.

“Cemitério do Gavião” e que também possui belas esculturas

É o que tem mais músicos maranhenses

O Cemitério de São Pantaleão, em São Luís, popularmente conhecido como “Cemitério do Gavião” e que também possui belas esculturas, é o que tem mais músicos maranhenses. Localizei dezesseis, mas segundo os jornais dos séculos XIX e XX, a quantidade seria muito maior – é possível que boa parte dos túmulos foram destruídos ao longo do tempo. Lá descansam o pianista Carlos Marques, sobrinho do historiador César Marques; a professora de piano Sinhazinha Santos; o maestro Antônio Rayol junto a seu filho Hilton; o contrabaixista Raimundo Canuto dos Anjos e o pianista José de Ribamar Passos “Chaminé”, ambos do Jazz Alcino Bílio; o maestro Ignácio Cunha; a mezzosoprano Olga Mohana; e, no cancioneiro popular, Antônio Vieira.

Outro local com músicos é a Capela de Bom Jesus dos Navegantes, anexa à Igreja e ao Convento de Santo Antônio. Lá estão a pianista Emília Moura Rayol, primeira esposa de Leocádio; o trompista Carlos Antônio Colás, irmão do primeiro músico maranhense de carreira nacional, Francisco Libânio Colás; e o maestro vianense Ladislau Muniz Fernandes, que se estabeleceu em São Luís Gonzaga. Pessoas que assumiam funções eclesiásticas podiam ser enterradas nas Igrejas. Na Catedral da Sé, temos o mestre de capela Vicente Ferrer de Lyra, falecido em 1857.

Caxias, dona de um rico passado musical, tem três cemitérios do século XIX. No de Nossa Senhora dos Remédios descansa Raimundo Ferreira Villa-Nova, que, além de diretor da Companhia Manufatureira e Agrícola do Maranhão (de Codó), foi organizador de bailes residenciais e regente da banda Lyra Commercial. No de São Benedito está a lápide de Jardelina Soares Campos, autora de uma breve peça para canto e violão, presente no Acervo João Mohana, datada de 24 de março de 1891.

As desigualdades sociais também se refletem

No belo Cemitério Municipal de Alcântara, afixada sob uma sepultura maior, encontrei apenas a lápide de Henrique Ciríaco Ferreira, autor de 146 composições constantes no Acervo João Mohana. As desigualdades sociais também se refletem nos cemitérios: mausoléus ornamentados com altares, esculturas e oratórios contrastam com as sepulturas simples dos pobres.

Seguindo o Litoral Ocidental, em Guimarães descansa a escritora e compositora Maria Firmina dos Reis, cujas melodias chegaram a nós graças à pesquisa de José Nascimento Morais Filho, cantadas por ex-alunas e transcritas em partitura pelo maestro Zequita. Em Turiaçu, que em 1930 teve sua biblioteca desativada e o arquivo da Prefeitura queimado por ordem de um interventor irresponsável, não identifiquei músicos locais como Osino Freire, José Bellarmino Alcoforado e o saxofonista Gregório Costa, que dá nome à atual Escola de Música Municipal.

Na baixada, Pinheiro possui um dos cemitérios mais organizados do Estado. Porém, não encontrei músicos lá. Em Arari, está preservado o túmulo do professor e maestro José Gonçalves Martins, homenageado na Praça do Folclore. Contudo, não localizei a lápide de seu pai, o maestro Raimundo, procedente de Viana e um dos precursores da tradição musical arariense. Viana, tida como a cidade da música, teve seu cemitério mais antigo – o Dois de Novembro – demolido (o mesmo ocorreu em Monção), perdendo boa parte de seu patrimônio tumular. Em visita ao atual Cemitério São Sebastião, localizei a sepultura de José Ribamar Costa – o “Zé Piteira” –, tido como o principal músico de sua época na cidade.

No Sul do Maranhão, Carolina possui um cemitério antigo, contudo, em más condições de preservação. A Leste, Brejo, que também tem relevante passado musical, conta com o Cemitério Paroquial atualmente desativado, mas organizado e bem cuidado – mesma situação do Cemitério Municipal de Santa Quitéria. Porém, não reconheci lápides de músicos nesses locais. Em Coroatá e Codó, na região dos Cocais, localizei apenas Raimundo das Mercês Braga, regente da banda Renascença Codoense (depois denominada Flor do Alto) nos idos de 1916. Em Tutóia, que assim como Santa Quitéria mudou de sede, visitei o Cemitério de Tutóia Velha, mais antigo, e o Cemitério da Igualdade – no qual está Paulino Neves, que foi comerciante, coronel e político e que dá nome ao município vizinho. Ambos possuem belos jazigos com esculturas, altares e oratórios. Próximo à Ilha de São Luís, visitei os cemitérios de Axixá, Morros, Rosário e Icatu. Todos são de fins do século XIX e estão relativamente preservados; mas entre as sepulturas pesquisadas não identifiquei músicos.

Os cemitérios antigos do Brasil são locais de memória e arte, sendo verdadeiros museus a céu aberto. Quando têm infraestrutura, podem se tornar um ponto turístico. Eles nos ensinam de onde viemos, e são para onde todos nós iremos. Como se afirma correntemente, “um homem só morre quando cai no esquecimento” – e isso nos diz muito sobre como viver.

.:: Revista VISUAL: Conclusão ::.

Os cemitérios antigos do Brasil são locais de memória e arte, sendo verdadeiros museus a céu aberto. Quando têm infraestrutura, podem se tornar um ponto turístico. Eles nos ensinam de onde viemos, e são para onde todos nós iremos. Como se afirma correntemente, “um homem só morre quando cai no esquecimento” – e isso nos diz muito sobre como viver.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados